Posicionando a Tanssi frente ao RaaS tradicional: soberania e conectividade além do discurso
Nos Ășltimos anos, o modelo de Rollup-as-a-Service (RaaS) ganhou espaço como resposta pragmĂĄtica a um problema real do ecossistema blockchain: lançar e operar uma rede prĂłpria Ă© caro, complexo e exige um nĂvel de especialização que a maioria das equipes de produto nĂŁo tem. O RaaS surge, entĂŁo, como uma abstração conveniente. Ele promete reduzir barreiras tĂ©cnicas, acelerar o time-to-market e permitir que times foquem no produto, nĂŁo na infraestrutura.
Esse modelo cumpre bem seu papel inicial. Mas, Ă medida que aplicaçÔes deixam de ser experimentais e passam a sustentar fluxos econĂŽmicos reais, surgem limites estruturais que nĂŁo podem mais ser tratados como detalhes tĂ©cnicos. Ă nesse ponto que a discussĂŁo deixa de ser âqual stack Ă© mais fĂĄcilâ e passa a ser sobre soberania, previsibilidade e conectividade de longo prazo.
Este artigo propĂ”e uma anĂĄlise comparativa sĂłbria entre o RaaS tradicional e a abordagem da @Tanssi , com foco especĂfico nesses dois eixos. A intenção nĂŁo Ă© declarar vencedores universais, mas entender por que arquiteturas diferentes produzem resultados diferentes quando confrontadas com casos de uso reais.
O que o RaaS tradicional resolve, e onde começam os atritos
RaaS, em sua forma mais comum, oferece um pacote gerenciado para deploy de rollups. A equipe escolhe um stack conhecido, define alguns parùmetros e herda uma infraestrutura pronta: sequencer, RPC, explorer, bridge padrão, indexação e monitoramento. Para MVPs e aplicaçÔes em estågio inicial, isso funciona bem. O custo cognitivo é baixo e a previsibilidade operacional inicial é alta.
O problema surge quando a aplicação cresce e começa a depender de garantias mais fortes. TrĂȘs atritos aparecem com frequĂȘncia.
O primeiro Ă© a soberania limitada. Embora o discurso seja de ârede prĂłpriaâ, a realidade Ă© que boa parte das decisĂ”es crĂticas permanece condicionada ao stack subjacente e ao ecossistema de liquidação. Mudanças profundas na lĂłgica de execução, no modelo econĂŽmico ou no comportamento da rede tendem a ser difĂceis ou inviĂĄveis sem romper compatibilidade.
O segundo atrito Ă© o sequenciamento. Muitos modelos de RaaS dependem, ao menos inicialmente, de um sequencer operado de forma centralizada para garantir desempenho. Isso resolve UX no curto prazo, mas cria dependĂȘncia operacional e um ponto Ășnico de falha que se torna sensĂvel conforme o volume cresce.
O terceiro Ă© a conectividade. Em geral, interoperabilidade e bridges sĂŁo tratadas como integraçÔes externas. Funciona, mas adiciona camadas de dependĂȘncia, superfĂcies de risco e custos operacionais que nĂŁo desaparecem com o tempo. Apenas se acumulam.
Esses limites nĂŁo tornam o RaaS âruimâ. Eles apenas delimitam claramente o tipo de aplicação para o qual ele Ă© adequado.
Soberania como variĂĄvel econĂŽmica, nĂŁo como slogan
Quando falamos em soberania no contexto deste artigo, nĂŁo estamos falando de independĂȘncia abstrata, mas de controle efetivo sobre quatro dimensĂ”es concretas: execução, economia, previsibilidade e governança.
Controle de execução significa poder definir como a lĂłgica da rede funciona, sem estar restrito a um conjunto fechado de opçÔes. Controle econĂŽmico envolve polĂtica de taxas, subsĂdios, incentivos e como o custo Ă© percebido pelo usuĂĄrio final. Previsibilidade diz respeito a throughput e latĂȘncia estĂĄveis, independentemente do comportamento de aplicaçÔes externas. Governança trata de quem decide mudanças estruturais e em que ritmo.
A abordagem da Tanssi parte da premissa de que, para muitos casos de uso maduros, essas quatro dimensÔes não podem ser terceirizadas indefinidamente. Por isso, em vez de oferecer apenas rollups configuråveis, a Tanssi foca na viabilização de L1s soberanas, com runtimes modulares que permitem customização profunda da lógica da rede sem exigir que cada equipe construa e opere toda a infraestrutura do zero.
Na prĂĄtica, isso desloca a soberania do nĂvel do âstack escolhidoâ para o nĂvel da prĂłpria chain. A equipe controla a execução e a economia, enquanto a Tanssi atua como camada de provisionamento, coordenação e confiabilidade operacional.
Infraestrutura gerenciada sem dependĂȘncia excessiva
Um ponto sensĂvel em qualquer comparação Ă© o trade-off entre descentralização e operacionalidade. A proposta da Tanssi nĂŁo Ă© exigir que cada projeto monte seu prĂłprio conjunto de operadores, mas tambĂ©m nĂŁo concentrar funçÔes crĂticas em um Ășnico agente.
Isso aparece, por exemplo, no modelo de sequenciamento. Em vez de depender exclusivamente de um sequencer fixo, a arquitetura prevĂȘ conjuntos de sequenciadores atribuĂdos e rotacionados. O objetivo nĂŁo Ă© atingir um ideal teĂłrico imediato, mas reduzir riscos operacionais reais sem sacrificar desempenho.
AlĂ©m disso, a existĂȘncia de nĂłs dedicados Ă preservação de dados e leitura histĂłrica reforça a ideia de infraestrutura persistente. Para aplicaçÔes que lidam com auditoria, histĂłrico financeiro ou dados regulatĂłrios, isso nĂŁo Ă© um detalhe tĂ©cnico, mas um requisito funcional.
Conectividade como parte da arquitetura, nĂŁo como acessĂłrio
Outro ponto de distinção importante estå na forma como a conectividade é tratada. No modelo da Tanssi, interoperabilidade não é apenas um conjunto de integraçÔes opcionais, mas um componente estrutural.
Dentro do ecossistema, a comunicação entre redes ocorre de forma nativa, permitindo troca de mensagens e ativos sem depender de soluçÔes externas para cada caso. Para o acesso Ă liquidez e ativos do Ethereum, a ponte Ă© desenhada com um modelo de confiança minimizada, evitando dependĂȘncia de custodiantes ou multisigs opacos.
Essa combinação reduz o custo cognitivo e operacional de manter conectividade ao longo do tempo, algo que se torna especialmente relevante quando a aplicação deixa de ser experimental.
Gotas: quando escala de consumidor expÔe limites arquiteturais
O caso do Gotas ajuda a ilustrar essas diferenças de forma concreta. A plataforma opera no contexto brasileiro, com forte foco em engajamento de usuĂĄrios finais e marcas. Seus nĂșmeros sĂŁo relevantes: centenas de milhares de carteiras, milhĂ”es de interaçÔes e campanhas em tempo real.
Esse tipo de workload torna inviĂĄvel depender de blockspace compartilhado imprevisĂvel. Campanhas promocionais, resgates e interaçÔes precisam funcionar independentemente de congestionamentos externos. AlĂ©m disso, a lĂłgica de recompensas exige ajustes frequentes na economia da rede, algo difĂcil de sustentar em stacks rĂgidos.
A escolha por uma L1 soberana permitiu o Gotas isolar seu ambiente de execução, controlar custos e reduzir dependĂȘncia de um sequencer Ășnico, mantendo ao mesmo tempo conectividade com outros ecossistemas. Aqui, soberania nĂŁo aparece como ideologia, mas como consequĂȘncia direta de exigĂȘncias operacionais.
Rivool: previsibilidade como requisito, nĂŁo como bĂŽnus
Enquanto o Gotas expÔe desafios de escala de consumidor, a Rivool evidencia outro tipo de pressão: previsibilidade em contextos financeiros e produtivos.
A Rivool atua, no seu caso de uso inicial, com crĂ©dito agrĂcola on-chain, conectando produtores a instrumentos financeiros digitais. Nesse cenĂĄrio, variabilidade de taxas, latĂȘncia imprevisĂvel ou dependĂȘncia de decisĂ”es externas Ă rede nĂŁo sĂŁo aceitĂĄveis. A lĂłgica de crĂ©dito, garantias e prazos exige um ambiente controlado, auditĂĄvel e estĂĄvel.
Mais uma vez, a escolha por uma arquitetura soberana não é estética. Ela responde diretamente à necessidade de alinhar infraestrutura blockchain a responsabilidades do mundo real.
Conectando as dores aos desenhos arquiteturais
Ao observar esses casos, fica mais fĂĄcil entender onde cada modelo se encaixa.
RaaS tradicional continua sendo uma solução eficiente para aplicaçÔes que priorizam velocidade de lançamento e aceitam limitaçÔes estruturais em troca de simplicidade. Jå a abordagem da Tanssi faz mais sentido quando a aplicação exige controle profundo sobre execução, economia e conectividade, sem abrir mão de uma camada de suporte operacional.
Não se trata de uma evolução linear, mas de escolhas arquiteturais diferentes para estågios e necessidades diferentes.
ConsideraçÔes finais
O mercado de infraestrutura blockchain estå saturado de promessas genéricas. ComparaçÔes honestas exigem ir além de slogans e observar como sistemas se comportam quando submetidos a carga real, usuårios reais e responsabilidades reais.
Ao posicionar a Tanssi frente ao RaaS tradicional, o ponto central nĂŁo Ă© afirmar que um modelo substitui o outro, mas mostrar que soberania e conectividade deixam de ser âfeatures avançadasâ quando aplicaçÔes amadurecem. Elas se tornam condiçÔes bĂĄsicas para que a blockchain deixe de ser apenas uma camada experimental e passe a sustentar economia de verdade.