O sol da tarde filtrava-se pelas janelas, tingindo de um dourado quente o estúdio do avô Kai. Manú, de dezoito anos e com a mente efervescente de um jovem explorador digital, estava sentado à sua frente, seu tablet na mão, um turbilhão de
ideias sobre como "conquistar" o mercado cripto.
—Avô, eu tenho! Estive pesquisando e se eu investir
aqui, e depois aqui, e depois ali… posso fazer uma fortuna! —disse Manú, seus
olhos brilhando com a promessa de lucros rápidos.
Kai, um homem de poucas palavras mas de sabedoria
profunda, sorriu. Deixou de lado seu livro e apontou para um velho quadro na parede:
uma ilustração antiga de uma galinha robusta, com um ovo brilhante a seus
pés.
—Manú, você conhece a história da galinha dos ovos
de ouro? —perguntou Kai calmamente.
Manú assentiu, embora com um leve toque de impaciência. —Sim,
avô. O fazendeiro a matou para conseguir todos os ovos de uma vez e não
encontrou nada.
—Exato —disse Kai, seu olhar fixo no quadro—. E essa
é, talvez, a lição mais importante que qualquer pessoa deveria aprender,
especialmente se quiser prosperar, seja em dinheiro, saúde ou
felicidade.
Kai se reclinou em sua cadeira, sua voz suave mas firme.
—Imagine, Manú, que você tem uma galinha mágica. A cada dia,
sem falta, põe um ovo de ouro. Não é um torrente de ouro, é um ovo a cada
dia, constante, confiável. Esse ovo de ouro pode ser qualquer coisa que te gere
valor: sua saúde se você cuidar, um bom relacionamento que cultiva, ou para o que você
pensa, o capital que investe com sabedoria e
disciplina no mercado, ou até mesmo o próprio mercado em si.
Manú ouvia, o tablet agora esquecido ao seu lado.
—Ninguém, Manú, ninguém em sã consciência,
tomaria essa galinha dos ovos de ouro e a mataria para fazer uma sopa.
Por quê? Porque se você matar a galinha, não haverá mais ovos. Acabou a fonte
da sua riqueza, do seu bem-estar, do seu futuro.
Kai se inclinou um pouco para frente, seu tom se tornando mais enfático.
—Agora, pense no que você me falava sobre o mercado, das
criptomoedas, dos seus planos de ganhar muito dinheiro. Nesse mundo, existem o
que vocês chamam de "baleias" ou
"tubarões", os traders institucionais, os grandes
fundos, as entidades com trilhões de dólares. Eles são os fazendeiros com as
galinhas maiores do galinheiro.
—Você acha que essas "baleias",
Manú, que com um único movimento podem influenciar o mercado, vão destruir
sua própria galinha dos ovos de ouro? Vão fazer algo tão drástico que mate
o mercado do qual eles mesmos obtêm seus imensos ganhos?
Manú franziu a testa, processando as palavras. —Não... não fariam. Se o mercado se
morre, eles não ganham.
—Exato —Kai assentiu com satisfação—. Não vão
"fazer uma sopa" com sua galinha. Seu interesse é que a galinha continue
viva, saudável e produtiva. Podem depená-la um pouco, movê-la de um galinheiro a
outro, assustá-la para que ponha mais ovos ou para que os ponha em seu ninho, mas
nunca, nunca, buscarão destruí-la completamente. Seu próprio interesse está em sua
sustentabilidade.
—E você,
Manú —continuou Kai, sua voz agora mais suave mas cheia de peso—, sua galinha é
dupla. É o capital que você está disposto a investir, que com o tempo e a
disciplina te dará seus próprios "ovos de ouro". E também é sua
capacidade de aprender, sua saúde, seu tempo. Se os esgotar, se os colocar em
risco de forma irresponsável, se tentar conseguir todos os
"ovos" de uma vez com uma única operação arriscada e sem estratégia,
você estará matando sua própria galinha.
Manú olhou para o quadro da galinha de ouro, depois para seu
avô. A ideia de "matar a galinha" ressoou de uma maneira nova e
profunda.
—Então, a chave é a paciência e proteger o que já
tenho? —perguntou Manú.
—A chave é entender que a verdadeira riqueza vem de
uma fonte sustentável, Manú —disse Kai—. De cuidar do que te produz, de
proteger seus ativos, de não ser impulsivo. As grandes baleias não matam seu
mercado. Você não deve matar seu capital, nem sua saúde, nem sua felicidade. Cultive sua
galinha, e ela te alimentará de ouro por muito tempo.
Manú sorriu, guardando sua tablet. Desta vez, o brilho em
seus olhos era o de uma nova compreensão, mais profunda e mais valiosa que
qualquer ganho rápido. Ele tinha entendido que, às vezes, a maior sabedoria
reside na humildade de proteger e preservar o que te dá vida.