Crescimento da capitalização do setor de memecoins em $17 bilhões em apenas duas semanas e meia em julho de 2025 — isso não é apenas especulação, mas resultado do uso sistemático de algoritmos sociais e atenção coletiva como um recurso extraído.

O conceito de mineração passou por uma transformação radical. Se antes essa palavra estava associada a um processo intensivo em energia de validação de transações na blockchain (Proof-of-Work), que consome mais energia do que países inteiros e leva a emissões significativas de CO₂[1], hoje uma nova modelo - mineração social - está em destaque.
Sua moeda — não poder computacional, mas atenção, humor e viralidade. Seus instrumentos — não mineradores ASIC, mas algoritmos de redes sociais, bots de Telegram e exércitos de degenerados cripto. Seu resultado — não um bloco de bitcoin, mas uma explosão instantânea do preço de um memetoken, alimentada por um único post bem-sucedido.
Esse fenômeno redefine como valor é criado e distribuído na economia digital, transformando a cultura da internet em uma poderosa ferramenta financeira.
Mecânica da nova mineração: do gatilho ao preço
Ao contrário da imprevisibilidade da mineração tradicional, onde o sucesso depende de sorte e chance, a mineração social é uma disciplina de engenharia. Ela pode ser decomposta em um algoritmo claro, onde cada etapa visa extrair o recurso mais valioso — a atenção humana.
1. Post e palavra-chave. O processo começa com a criação de conteúdo. Isso pode ser um meme, um tweet enigmático de um influenciador (KOL) ou uma 'previsão oracular' em um canal do Telegram. O elemento chave é a incorporação de gatilhos: nomes de tokens ($BONK, $PEPE), hashtags (#solanameme) ou dicas sobre um anúncio iminente. Influenciadores como Elon Musk demonstraram imenso poder ao provocar oscilações no preço do Dogecoin em dezenas de porcentagens com apenas um tweet.
2. Reforço algorítmico. Aqui entram em cena bots e estratégias automatizadas. Com bots de negociação, cria-se a aparência de alta atividade (volume), o que atrai a atenção dos algoritmos de plataformas analíticas, como DexScreener, e leva o token ao topo. Simultaneamente, um plano de conteúdo viral é lançado nas redes sociais (X, TikTok, Telegram), que se agarra aos narrativos atuais — seja a febre Solana ou a temporada política.
3. Reação da comunidade e FOMO. Se o gatilho é acionado, a mineração social começa. Os usuários discutem, compartilham, começam a buscar o token. Surge o efeito 'medo de perder a oportunidade' (FOMO). Neste momento, sinais técnicos de confiança são criticamente importantes: retirada de poderes para emissão de tokens do criador (para evitar a 'impressão' de uma quantidade infinita de moedas) e a presença de liquidez suficiente para negociar sem enormes taxas.
4. Reação do mercado. A atenção se converte em impulso financeiro. O volume de negociações aumenta, o preço começa a se mover. Esta etapa é cuidadosamente monitorada pelos participantes da estratégia. Sistemas modernos baseados em IA, que utilizam modelos como LSTM e Transformer, analisam não apenas gráficos, mas também fluxos de dados de redes sociais, avaliando sentimentos e prevendo picos de curto prazo.
Assim, a mineração social é um ciclo de transformação: código cultural (meme) → atenção coletiva (discussão) → energia financeira (crescimento de preços). Ela cria um ciclo auto-sustentável, onde o crescimento de preços gera novas discussões, que, por sua vez, impulsionam o preço.
Ferramentas e estratégias do minerador de atenção
A mineração social requer ferramentas especializadas. Se o minerador clássico escolhe entre uma placa de vídeo e um ASIC, o minerador social opera com um arsenal diferente.
Ferramentas para distribuição direcionada (Airdrop)
Em vez de esperar que o público encontre o token, ele é atraído diretamente. Usando ferramentas como Snapshot + Multisender, é possível fazer uma 'foto' das carteiras dos detentores de tokens semelhantes (por exemplo, todos os proprietários de memecoins de cães) e enviar drops gratuitos para eles. Isso cria um público interessado instantâneo e um volume inicial.
Análise e previsão baseadas em IA
Os mineradores de atenção utilizam sistemas analíticos avançados. Modelos de redes neurais analisam correlações: por exemplo, como o crescimento do valor total (TVL) na blockchain Base precedeu o rali da memecoin $BRETT. Eles processam não apenas séries temporais de preços, mas também dados de redes sociais, atividade de baleias e fluxos de notícias, identificando padrões invisíveis ao olho humano. Modelos modernos, como o Transformer, são especialmente eficazes na análise de sentimentos, o que é crítico para o comércio de ativos de meme.
Estratégias de gestão de portfólio de memecoins
· Seguir as ondas narrativas. Traders bem-sucedidos acompanham não gráficos, mas métricas sociais: crescimento do número de seguidores no X, atividade no Discord/Telegram, frequência de menções no Reddit. O capital é redistribuído entre tendências: de tokens ecossistêmicos Solana para memecoins políticas na temporada de eleições.
· Regra 'Compre rumores, venda notícias'. A entrada ocorre na fase de formação do narrativo, e a saída — no auge do entusiasmo. É importante realizar lucros em partes, pois a queda após o pico pode ser rápida.
· Concentração em líderes. Historicamente, memes originais com uma marca forte ($DOGE, $PEPE) mostram uma resistência melhor do que seus incontáveis clones.
Esses ferramentas transformam o mundo caótico das memecoins em um campo para atividades sistemáticas, embora extremamente arriscadas.
Lado sombrio: riscos, fraudes e limites éticos
A mineração social é um território de extrema volatilidade e riscos, que não se comparam ao investimento tradicional.
· Rug Pulls. Essa é a principal ameaça. Desenvolvedores anônimos podem renunciar ao controle do token apenas verbalmente, mas na prática — a qualquer momento, vender toda a liquidez ou imprimir novos tokens, zerando o valor dos investimentos. A verificação do contrato em plataformas como Etherscan é o mínimo obrigatório.
· Volatilidade extrema. Oscilações de 50% ou mais em um dia são comuns para memecoins. O preço depende exclusivamente da atenção, que pode mudar instantaneamente para um novo objeto.
· Manipulações e jogo de insiders. Por trás da aparente atividade da comunidade, muitas vezes se escondem ações coordenadas de criadores e primeiros detentores, que vendem tokens (despejam) no auge do entusiasmo, ficando com lucro.
· Incerteza regulatória. Ao contrário do bitcoin, o status das memecoins aos olhos dos reguladores é ainda mais nebuloso. Qualquer endurecimento pode instantaneamente desmoronar segmentos inteiros desse mercado.
Do ponto de vista ético, a mineração social equilibra-se na corda bamba. Por um lado, é a democratização da especulação e uma forma de criatividade coletiva. Por outro — uma ferramenta para a criação e redistribuição sistemática de bolhas financeiras, onde os participantes mais vulneráveis (investidores de varejo inexperientes) sofrem as maiores perdas.
Perspectivas: o que aguarda a economia da atenção
A evolução da mineração social será determinada por várias tendências-chave.
· Integração com IA de próxima geração. O futuro pertence a modelos híbridos que não apenas preveem preços, mas também geram e testam automaticamente conteúdo de memes, determinando os gatilhos e canais mais eficazes para sua disseminação.
· Complexificação das estratégias. A substituição de pump primitivos dará lugar a jogos sociais e financeiros complexos, utilizando mecanismos de organizações autônomas descentralizadas (DAO), apostas tokenizadas e cenários no estilo de 'jogos de soma não nula'.
· Responsabilidade e autorregulação. Para sobreviver a longo prazo, a comunidade precisará desenvolver mecanismos para combater fraudes — sistemas de reputação, auditoria obrigatória e distribuição transparente de tokens.
A economia da atenção, da qual a mineração social é parte, já não é uma metáfora, mas uma realidade tecnológica e financeira. Ela desafia as concepções tradicionais de valor, investimento e trabalho produtivo.
Ela demonstra que, na era digital, o desafio mais complexo não é extrair recursos do subsolo, mas sim extrair e reter recursos do subconsciente humano. E aquele que possui os algoritmos para gerenciar esse processo detém uma das ferramentas mais poderosas da modernidade.