Pré-condições: limitações econômicas e financeiras
Antes da integração do Bitcoin, a economia de El Salvador enfrentava uma série de problemas sistêmicos:
Falta de uma moeda nacional própria (o dólar dos EUA é utilizado desde 2001).
Alta dependência de remessas de migrantes (as remessas representavam mais de 20% do PIB).
Acesso limitado da população a serviços bancários (uma parte significativa dos cidadãos não possuía contas bancárias).
Taxas de sistemas de pagamento internacionais e intermediários.
Nessas condições, o governo procurou ferramentas financeiras alternativas para aumentar a inclusão financeira e reduzir custos.
2021: Bitcoin torna-se meio de pagamento legal
Em junho de 2021, o presidente do El Salvador, Nayib Bukele, anunciou a intenção de tornar o Bitcoin uma moeda de pagamento oficial. Já em setembro de 2021, o Bitcoin foi reconhecido como meio de pagamento legal ao lado do dólar dos EUA.
Princípios-chave da lei:
BTC é obrigatório para aceitação como meio de pagamento (se houver capacidade técnica).
O Estado garantiu a conversão instantânea de BTC em USD.
Isenção de imposto sobre ganho de capital em operações com BTC.
Criação da carteira estatal Chivo.
Este foi o primeiro caso na história mundial em que um estado soberano reconheceu o Bitcoin como moeda oficial.
Infraestrutura estatal e Chivo Wallet
Para apoiar a iniciativa, o governo lançou:
Chivo Wallet — carteira Bitcoin estatal.
Rede de caixas eletrônicos Bitcoin dentro e fora do país (nos EUA).
Bônus para cidadãos por registro (equivalente a $30 em BTC).
Objetivos principais:
Simplificação das transferências internacionais.
Aumento da alfabetização digital.
Redução da dependência de intermediários bancários.
Compra governamental de Bitcoin
O El Salvador começou a formar um reservatório estatal de Bitcoin, realizando compras regulares de BTC.
Características distintivas da estratégia:
Detenção de longo prazo (HODL).
Declarações públicas sobre compras.
Uso do BTC como reserva estratégica, e não como ativo especulativo.
Apesar da volatilidade do mercado, o governo enfatizou que o Bitcoin é visto como uma ferramenta de transformação econômica de longo prazo.
Bitcoin City e estratégia geoeconômica
O El Salvador anunciou o projeto Bitcoin City — uma cidade com isenção de impostos sobre renda e ganho de capital (exceto IVA), voltada para:
Mineração de BTC utilizando energia geotérmica de vulcões.
Atração de empresas tecnológicas e investidores.
Desenvolvimento do Web3, fintech e ativos digitais.
O financiamento previsto foi por meio da emissão de Bitcoin Bonds (Volcano Bonds), garantidos por receitas do BTC e da infraestrutura energética.
Reação das instituições internacionais
A iniciativa gerou reações ambíguas:
O FMI e o Banco Mundial expressaram preocupação com a estabilidade financeira e os riscos envolvidos.
Agências de classificação destacaram o aumento dos riscos soberanos.
A comunidade cripto e os defensores da descentralização apoiaram a iniciativa do El Salvador como um precedente histórico.
Apesar da pressão, o governo manteve o curso rumo à integração cripto.
Resultados e impacto reais
Conclusões principais:
O El Salvador tornou-se um símbolo global de um estado cripto.
Atraiu atenção de investidores, turistas e empreendedores do Web3.
Aumentou a alfabetização financeira de parte da população.
O experimento revelou tanto o potencial quanto as limitações da adoção em massa do BTC.
É importante destacar que a implementação do Bitcoin é um experimento macroeconômico de longo prazo, e não uma ferramenta financeira de curto prazo.
Importância para o mundo e a indústria blockchain
Experiência do El Salvador:
Criou um precedente jurídico para outros países.
Demonstrou a possibilidade de integração de ativos descentralizados no sistema estatal.
Iniciou uma discussão global sobre moedas soberanas, CBDCs e o papel do Bitcoin como ativo de reserva.
O El Salvador tornou-se o primeiro país a passar da teoria para a prática no uso do Bitcoin em nível governamental.

