Minha leitura do que ocorreu na Venezuela sob a perspectiva de uma geopolítica fria:
1. O direito internacional já não existe. Muito menos aquilo do mundo baseado em regras. Havia morrido em Gaza e agora Trump o confirma em seu "pátio dos fundos". O que impera agora, com relação à relação das potências com suas esferas de influência, é a força. Em relação à América Latina, voltamos ao marco do final do século XIX e início do XX: uma zona de intervenção estadunidense de conformidade com seus interesses geopolíticos fundamentais. Em um momento onde o império do Norte volta a se concentrar naqueles recursos que precisa de seu espaço geográfico imediato: petróleo, minerais, terras cultiváveis, água e posições estratégicas (portos, cruzamentos marítimos, etc.).
2. No mundo só há três potências realmente soberanas: Estados Unidos, China e Rússia. Soberanas no sentido de que podem agir com autonomia a nível geopolítico, isto é, sem necessidade de autorizações. Ao mesmo tempo que dispõem dos recursos efetivos (armamento e tecnologia), profundidade estratégica (território, população e história) e alianças internacionais para fazê-lo. Uma dessas potências, a ainda mais militar e economicamente decisiva, está dirigida por um tipo ao qual não lhe importa nem o direito internacional nem a democracia (nem mesmo em seu próprio país). As outras duas, uma em plena emergência (China) e a outra existencialmente ameaçada em sua esfera de influência (Rússia), por simples correlação e lógica vão atuar em consequência. Por enquanto, especialmente em suas esferas de influência.
3. A Ucrânia e Taiwan devem estar muito preocupados. A resolução de suas contradições com Putin e Jinping, respectivamente, não se solucionarão por vias "democráticas" nem baseadas no já inexistente direito internacional. Ao mesmo tempo que por si só não têm com que responder em uma eventual situação de verdadeiro cerco por parte das duas potências que as rodeiam. Máxime Taiwan que cultural e historicamente é parte da China.
4. A América Latina está condenada a ser um vulgar anão geopolítico. Isto o digo ao ver como as direitas e elites dominantes celebram uma violação tão flagrante como a que acaba de fazer os EUA de Trump na Venezuela (um país irmão). As acusações contra Maduro e a cúpula chavista são ridículas. A Venezuela, dito pela ONU, desempenha um papel marginal no narcotráfico internacional. Não é em nenhum caso um ator chave nesse terrível negócio internacional. Atacaram pelo petróleo. O que entraña o problema de que se hoje justificam um ataque sob falsas premissas contra um país irmão, depois outro presidente dos EUA (a Trump lhe restam três anos aí) pode fazer o mesmo esboçando outra desculpa. Eis a gravidade: que voltemos a ser uma zona de intervenção militar direta. As direitas latino-americanas nunca entenderam de soberania. Menos agora que giraram ao ultradireitismo irracional. Vejam como o enfermito Milei está celebrando. Não entende que isso lhe agrada agora porque o faz um ultradireitista de turno no Norte, mas amanhã pode fazê-lo um democrata "woke" contra a própria Argentina em nome de qualquer outro invento e aí não celebrará (quando digo amanhã não é em sentido literal, pode ser dentro de décadas. A questão é que fica fixado o precedente. Sinalizo isso porque nestes tempos de declínio cognitivo é preciso precisar até o elemental).
Rapidamente uma chave de política interna da Venezuela: a aparente saída de Maduro, segundo o que se diz a esta hora, seja por prisão ou porque se trasladou a outro país, chama muito a atenção... Não parece crível que uma operação como essa tenha sido feita sem mortos nem feridos. Parece tudo muito ensaiado. De momento, o fato concreto é que o chavismo continua dirigindo. E que os militares também continuam ao comando. Tudo por enquanto. Veremos mais adiante o que acontece.