As tecnologias mudam, mas a ganância humana e o desejo de acreditar em um conto de fadas permanecem inalterados há séculos.
Muito antes da existência da internet, ainda no final do século XVI e especialmente no agitado século XIX, os europeus abastados começaram a receber estranhos bilhetes escritos à mão. Foi uma verdadeira epidemia que atingiu a Inglaterra, a França e, posteriormente, a América.
O cenário era sempre aproximadamente o mesmo, mas executado com dramatismo digno de romances de Dumas. A carta chegava supostamente de um rico aristocrata, general ou banqueiro que havia sido injustamente preso em um sombrio castelo na Espanha (mais tarde, o local mudou para a Itália, e o golpe ficou conhecido como 'Fortullino').
Na carta, o 'prisioneiro espanhol' pedia ajuda. Ele escrevia que escondera incontáveis tesouros (ouro, diamantes, papéis valiosos), mas não conseguia alcançá-los da prisão. Ele precisava apenas de uma coisa: uma pessoa de confiança fora da prisão que o ajudasse a escapar ou, pelo menos, a levar o tesouro.
O gancho psicológico era duplo. Primeiro, a ganância: em troca da ajuda, o 'prisioneiro' prometia um terço, ou até metade, de seu tesouro. Segundo, a romantização e o narcisismo. Muitas vezes, na carta mencionava-se que a jovem e bela filha do prisioneiro também sofria com ele. O autor insinuava que seu salvador poderia se tornar um excelente companheiro para ela, unindo assim riquezas e corações. A vítima se sentia como um herói de romance de aventuras.
O esquema funcionava como um relógio. A vítima respondia à carta. Em resposta, chegavam instruções: era necessário enviar dinheiro urgentemente para subornar o guarda que entregaria a chave da caixa com o tesouro. A vítima enviava o dinheiro. Depois, chegava a próxima carta: o guarda exigia mais. Em seguida: era necessário pagar a taxa na fronteira. Depois: a filha ficou doente, precisava de remédios. Depois: surgiram problemas com o advogado.
Essa foi uma classificação clássica de 'pagamento antecipado'. Os trapaceiros 'espremeram' as vítimas por meses, às vezes até anos. As pessoas continuaram a pagar porque já haviam investido muito dinheiro e não conseguiam admitir para si mesmas que haviam sido enganadas — os psicólogos chamam isso de 'armadilha de custos irreversíveis'.
Na verdade, as cartas não eram escritas em castelos, mas em pequenos quartos apertados em Barcelona, Madri ou Nápoles, por bandos inteiros de pequenos trapaceiros. Eles compravam listas de pessoas ricas e enviavam milhares de cartas, sabendo que, mesmo que apenas um por cento dos destinatários caísse na isca. Esse golpe foi tão bem-sucedido que durou quase 400 anos, passando suavemente da era da pena de ganso para a era do e-mail e das 'cartas nigerianas'.



