Minha esposa ainda não sabe que eu perdi tudo. Todas as noites, ela se aconchega em meu abraço, com os olhos brilhantes como no primeiro dia de amor, sussurrando:
“Amor, vamos tentar mais um pouco. Eu já pensei, no próximo ano podemos comprar um pequeno apartamento, contanto que tenha uma varanda para plantar alguns vasos de flores. Nosso filho vai correr pela nossa casa, e não mais por uma casa alugada. Eu só preciso disso, o resto eu cuido.” Eu assenti, abracei-a bem apertado para que ela não ouvisse meu coração batendo descontroladamente no peito. Ela ainda acredita que as economias dos últimos anos estão tranquilas no banco, ainda acredita que as noites em que fico acordado são por causa de “trabalho da empresa”, ainda assim. Ela não faz ideia de que a conta que os dois costumávamos chamar de “A casa do filho” agora tem apenas alguns trocados, não sabe que eu secretamente saquei tudo e joguei no buraco negro chamado mercado. Ela ainda pergunta despreocupada: “Neste fim de semana, vamos ver móveis, certo? Eu vi um modelo de armário de cozinha branco que é muito bonito.”
Eu sorri e disse que sim, que vou me organizar. Ela ainda sonha, ainda pinta o futuro com as cores rosa que eu prometi desde os dias em que o salário era farto. E eu, todas as noites, sento-me na escuridão, com as mãos tremendo enquanto atualizo o saldo negativo infinito, ouvindo a dívida bater à porta a cada segundo. Mas eu ainda sorrio para ela, ainda beijo seu cabelo como se nada tivesse acontecido. Porque desde que ela ainda acredite que tudo está bem, pelo menos, seu sonho ainda pode viver mais um dia, antes que eu tenha que contar a verdade e ver todo o nosso mundo se despedaçar em minhas mãos.
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