Governo Trump cogita ampliar as sançÔes contra o Brasil
As sançÔes impostas pelos Estados Unidos contra autoridades brasileiras devem ganhar novos contornos nos prĂłximos dias, com potencial agravamento das tensĂ”es diplomĂĄticas entre os dois paĂses. Segundo reportagem do jornal Estado de S. Paulo, o governo do presidente Donald Trump pretende aplicar novas medidas punitivas contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e integrantes do alto escalĂŁo do governo Lula, como parte de uma ofensiva que mistura geopolĂtica e disputas internas no Brasil.
Entre as açÔes jĂĄ em curso, oito ministros do STF â Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, CĂĄrmen LĂșcia, Luiz Roberto Barroso, FlĂĄvio Dino, Edson Fachin, Cristiano Zanin e Dias Toffoli â jĂĄ teriam perdido o visto de entrada nos EUA. Agora, eles poderĂŁo ser formalmente sancionados pela Lei Global Magnitsky, o que implicaria congelamento de bens e restriçÔes financeiras e comerciais por parte de empresas americanas e instituiçÔes que operem sob jurisdição dos Estados Unidos.
âA ideia Ă© pressionar os ministros que votaram pela responsabilização do ex-presidente Jair Bolsonaro e que defendem a regulação das redes sociaisâ, aponta a reportagem. A intenção do governo Trump seria ampliar o uso da Lei Magnitsky para restringir ainda mais o alcance internacional dessas autoridades, inclusive dificultando transaçÔes financeiras em bancos que tenham vĂnculos com o sistema americano.
A legislação, aprovada em 2012 no governo Barack Obama, permite sançÔes contra estrangeiros acusados de corrupção ou de graves violaçÔes de direitos humanos. Para aplicĂĄ-la, o presidente dos EUA precisa apresentar provas ao Congresso, dominado atualmente por aliados de Trump, que estĂĄ em seu segundo mandato presidencial desde janeiro de 2025. Para reverter as sançÔes, os alvos devem demonstrar mudança de conduta ou ausĂȘncia de envolvimento nos atos que originaram a punição.
Escalada contra o Planalto e risco diplomĂĄtico
A reportagem tambĂ©m informa que integrantes do governo Lula podem ser atingidos com a retirada de vistos e proibição de entrada em territĂłrio americano. O presidente Lula e a primeira-dama, Janja, estariam fora da lista de sançÔes por ora. No entanto, membros importantes do PalĂĄcio do Planalto deverĂŁo ser afetados. O cenĂĄrio mais extremo cogitado seria a expulsĂŁo da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, o que significaria uma ruptura diplomĂĄtica entre os paĂses.
Essa escalada faz parte de uma estratĂ©gia mais ampla do governo Trump para forçar alinhamento polĂtico e ideolĂłgico nas AmĂ©ricas, especialmente contra governos de esquerda como os da ColĂŽmbia e do MĂ©xico. Segundo a apuração do EstadĂŁo, o Brasil estaria sendo usado como exemplo para futuras açÔes similares na regiĂŁo.
Empresas sob pressĂŁo
As sançÔes tambĂ©m afetam diretamente empresas brasileiras que exportam para os EUA. A orientação, segundo analistas ouvidos pela reportagem, Ă© que companhias busquem acordos diretos com empresas e autoridades americanas, oferecendo contrapartidas â como investimentos nos EUA â para evitar tarifas mais elevadas ou barreiras comerciais.
Exemplos de paĂses asiĂĄticos sĂŁo citados como referĂȘncia. O JapĂŁo teria firmado compromissos de US$ 550 bilhĂ”es em investimentos nos setores de energia, semicondutores e farmacĂȘutica nos EUA, em troca da redução de tarifas. O governo japonĂȘs nega tal acordo, mas os termos foram promovidos pela Casa Branca em um comunicado oficial. IndonĂ©sia e Filipinas tambĂ©m teriam feito concessĂ”es tarifĂĄrias, apesar de sua menor capacidade industrial em comparação com o Brasil.
No entanto, o Brasil encontra obstĂĄculos adicionais: a falta de diĂĄlogo entre os governos e o forte protecionismo da indĂșstria nacional. Neste contexto, empresas brasileiras dependeriam mais da articulação com varejistas e atacadistas americanos, que podem atuar como aliados comerciais para pavimentar negociaçÔes com Washington.
SilĂȘncio oficial
Procurado pelo Estadão, o Palåcio do Planalto não respondeu às solicitaçÔes de comentårio. O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, afirmou que não se manifestarå sobre o assunto.
Caso a ampliação das sançÔes se confirme, o Brasil poderĂĄ enfrentar nĂŁo apenas constrangimentos diplomĂĄticos, mas tambĂ©m desafios econĂŽmicos e jurĂdicos com implicaçÔes duradouras em sua relação com os Estados Unidos, num momento de acirramento polĂtico e disputas ideolĂłgicas globais.