Verdades Inconvenientes Sobre o Brasil
Antes de qualquer interpretação enviesada, é fundamental esclarecer um ponto: os problemas descritos a seguir não pertencem a este ou àquele governo, tampouco a uma corrente ideológica específica. Eles refletem características estruturais do sistema político-institucional brasileiro, construídas e reforçadas ao longo de décadas. Governos passam, partidos se alternam no poder, discursos mudam, mas o arranjo institucional permanece essencialmente o mesmo — preservando incentivos distorcidos, privilégios consolidados e uma lógica que dificulta reformas profundas. Ignorar esse caráter sistêmico é repetir o erro recorrente de personalizar problemas que são, na verdade, estruturais. Dito isso, vamos aos fatos.
O Poder Executivo concentra algumas das distorções mais visíveis da administração pública. A principal delas é a baixa eficiência na transformação de arrecadação elevada em serviços públicos de qualidade. Há excesso de cargos comissionados, fragmentação administrativa, políticas públicas descontinuadas a cada troca de governo e forte influência político-partidária sobre decisões técnicas. Em nível federal, estadual e municipal, observa-se dificuldade crônica de planejamento de longo prazo, má gestão de projetos, desperdício de recursos e tolerância com estruturas inchadas, o que resulta em obras inacabadas, serviços precários e dependência crescente de aumento de impostos ou endividamento.
O Poder Legislativo sofre com uma profunda crise de representatividade e propósito. Em vez de priorizar sua função essencial de legislar e fiscalizar o Executivo, grande parte do Parlamento se dedica à autopreservação política, à barganha por cargos, emendas e privilégios. A produção legislativa é inflada por projetos irrelevantes ou meramente simbólicos, enquanto reformas estruturais indispensáveis — administrativa, política e fiscal — são adiadas ou desfiguradas. O custo do Legislativo brasileiro é elevado e desproporcional à qualidade das leis produzidas e ao controle efetivo que deveria exercer.
O Poder Judiciário - que no Brasil mais parece um templo sagrado habitado por semideuses - apresenta como uma de suas principais mazelas o afastamento progressivo da realidade social e fiscal do país. Trata-se de uma estrutura cara e altamente protegida, com remunerações extremamente elevadas, além de criação de verbas pretensamente indenizatórias, benefícios acessórios, desrespeito ao teto remuneratório constitucional, etc, que tornam o gasto praticamente imune a crises econômicas. Soma-se a isso a morosidade processual, a insegurança jurídica gerada por decisões conflitantes e a tendência à judicialização excessiva da política, o que frequentemente transforma o Judiciário em protagonista de escolhas que deveriam ser resolvidas no campo democrático.
Os Tribunais de Contas, concebidos como órgãos técnicos de controle e racionalização do gasto público, também não escapam às distorções. Embora exerçam função relevante, muitos são marcados por indicações políticas, baixa renovação institucional e excesso de formalismo. O controle, em vez de preventivo e orientador, muitas vezes é tardio, seletivo ou concentrado em aspectos burocráticos, falhando em coibir desperdícios estruturais e em promover uma cultura real de eficiência e responsabilidade fiscal na administração pública.
Por fim, é impossível ignorar a responsabilidade dos eleitores nesse cenário. Um sistema político disfuncional não se sustenta sem complacência social. O voto frequentemente é tratado como instrumento de protesto vazio, troca por favores imediatos ou expressão de fanatismo ideológico, em vez de um ato racional de cobrança e escolha responsável. A tolerância com promessas inviáveis, discursos fáceis, corrupção recorrente e privilégios explícitos contribui diretamente para a perpetuação das mesmas elites políticas e institucionais. Enquanto o eleitor não assumir seu papel como agente ativo de fiscalização, memória e exigência ética, nenhuma reforma estrutural será duradoura — e o ciclo de mediocridade institucional continuará se renovando eleição após eleição.
Logicamente, os problemas do Brasil não se resumem aos apontados acima. Há dezenas, talvez centenas ou até mesmo milhares de outras malezas e problemas que poderiam ser apontados. O que parece não mais haver é ambiente para que esses problemas sejam discutidos de forma madura e civilizada, em razão do altíssimo grau de radicalismo e intolerância que tomou conta do país nos últimos anos. Sem conseguirmos estabelecer um nível mínimo de diálogo para debatermos sobre os problemas que afetam o país, estamos cada vez mais distantes de encontrarmos as soluções e, portanto, cada vez mais longe de construirmos o país que sonhamos para nós e nossos descendentes.
Mas então será que, diante de tudo isso, o Brasil ainda tem jeito? Será que ainda vale a pena permanecer no Brasil e tentar ajudar a mudá-lo? Não seria mais fácil, como alguns dizem, o macaco mudar de árvore do que tentar mudar as características da árvore? Bem, as respostas a essas questões são claramente individuais. Seria por demais pretensiosa, aqui, a busca por respostas definitivas ou conclusões incontestes para questões tão complexas. O que posso almejar é apenas provocar a reflexão sobre o assunto. Faça isso e você chegará às suas próprias respostas. Eu já cheguei às minhas e, por isso, sigo acumulando Bitcoin! #BTC #HODL